Cris Ferreira
josoylobon:

oh!

Bellamy, última (e polêmica) produção de Claude Chabrol, que nos deixou ontem, aos 80 anos. Cineasta da Nouvelle Vague e editor do Cahiers du Cinéma.

Violência Gratuita (Funny Games) – 1997 Michael Haneke

Do mesmo diretor de A Fita Branca (Das Weisse Band – 2009), Violência Gratuita, é um filme considerado difícil e indigesto para a maioria das pessoas pelo tratamento na exposição da violência; é a crueldade exibida por Haneke, presente em todas as suas obras, e nesta em especial, intrinsecamente capaz de causar incômodo.

Logo na abertura somos convidados pelo diretor para um tranqüilo passeio de carro, com visão aérea da estrada, na qual uma família comum e feliz está se dirigindo a um final de semana agradável em sua casa de veraneio. Um clima sereno no interior do carro, música suave ouvida pela família e servindo de trilha sonora. Os créditos cortam bruscamente a imagem e com uma música fora do ambiente, ao som de heavy metal, somos lembrados que essa história não será calma como tudo levava a crer.

Dois jovens desconhecidos surgirão na casa da família. A respeito deles, apenas sabemos que momentos antes visitavam a casa dos vizinhos. A presença dos rapazes, vestidos de ajudantes de golfe, em uma vila tranquila onde todos se conhecem não desperta suspeitas.  

O primeiro rapaz, Peter (Frank Giering), aparece na casa pedindo gentilmente por alguns ovos, mas gradativamente nos é revelado, principalmente após a chegada do segundo jovem, Paul (Arno Frisch), que eles são na verdade, intrusos com outras intenções. Comportando-se como meros convidados para o jantar, a dupla obriga a família a entrar em jogos perversos de violência - física e psicológica – infringindo-lhes humilhações e a perspectiva de que o objetivo dos jogos não trará nenhuma diversão para os outros. 

Para os críticos mordazes desse filme, ele é de uma violência desnecessária e chocante tornando-o apenas mais um gênero de diversão mórbida. Por outro lado, certamente o fato de ser realizada com aparência de educação e cortesia, oriunda de jovens com boa aparência - classe média - ou seja, totalmente distante do universo da marginalidade, contribui para o estranhamento dos que não apreciam Violência Gratuita. Haneke deseja mostrar que a violência está latente no interior das pessoas. Em vários momentos a família pergunta a Paul, líder assumido da dupla, o motivo de seus atos e oferecem dinheiro e pertences para serem libertados. Os jovens apresentam-nos várias versões para justificar seu comportamento brutal, porém nenhuma é verdadeira, embora qualquer uma pudesse ser real. A agressão empregada ali existe apenas por existir. Não estão interessados em qualquer tipo de bens de valor. É o desejo puro e simples de torturar e enlouquecer o outro. As pessoas são más e isso faz parte de sua natureza, portanto justificativas são dispensáveis, a crueza da sociedade é desmascarada para ser apreciada.

Em um ambiente tenso e envolvente, somos conduzidos para sentir o desespero das vítimas em escapar daquele jogo mortal. A maior parte dos acontecimentos se passa na sala de TV e Haneke manipula cenas em câmera parada, dando a impressão de estarmos presos com eles. Os closes de rosto em rosto, enquanto todos (agressores e vítimas) estão discutindo sentados nos sofás geram uma sensação de circularidade e sufocamento. Essa dinâmica nos atinge plenamente como voyeurs impotentes. O filme tem o poder de nos causar repulsa e curiosidade, inclusive convidando o espectador a entrar nas apostas do jogo quando Paul, olhando para a câmera, conversa conosco. Para as pessoas capazes de compreender a arte cinematográfica como maravilha capaz de despertar sentimentos variados apreciarão Haneke por nos fazer sentir a violência invadir um ambiente seguro e confortável até chegar ao nível mais cruel e insano de aflição e sofrimento.

Robert Bresson, único. Interessante olhar para o diretor que influenciou alguém que eu amo (Haneke) e alguém que eu acho desnecessário (Tarkovsky).

Festim Diabólico (1948) - Alfred Hitchcock

Primeiro filme colorido (Technicolor) de Alfred Hitchcock, Festim Diabólico (Rope)  estreado em 1948 é uma adaptação de uma peça teatral e espetáculo da Broadway em 1929, escrita por Patrick Hamilton, por sua vez inspirada num caso real de assassinato na cidade de Chicago, o caso “Leopold and Loeb”. Dois jovens brilhantes, tomados pelo conceito de super-homem, de Nietszche, se crêem seres superiores capazes de cometer o crime perfeito, porém o crime perfeito é descoberto e são condenados a prisão. A repercussão disso é notável tanto pela sua frieza como pelo próprio espetáculo que se tornou o seu julgamento, sendo, por fim uma história amplamente recriada nas décadas seguintes. Sem conhecer os elementos que envolveram a produção do roteiro e registrados na memória das pessoas, muito se perde da compreensão deste filme, ainda que certamente o domínio técnico e a condução do suspense hitchcockiano possam transcender a datação do filme; tenso, sórdido e delicioso mesmo 60 anos depois de sua realização.

Tal como Janela Indiscreta (Rear Window - 1954) e Disque M Para Matar (Dial “M” for murder- 1954) a trama se desenvolve quase totalmente em um ambiente fechado, quase claustrofóbico se não fosse pela dinâmica empreendida por Hitchcock. As tomadas recebem um tipo especial de edição para tornar os cortes imperceptíveis. Tudo acontece no mesmo ambiente, o assassinato, a festa com convidados peculiares: pai, a noiva da vítima (David), o esperto Rupert (James Stewart), ex-professor da vítima e de seus colegas assassinos, outro amigo em comum que posteriormente descobriremos ter sido namorado da noiva.  O jantar, servido em cima da arca onde o corpo repousa sem que os convidados suspeitem faz parte da prova final para um crime perfeito, tão perfeito e tão próximo que ninguém ousaria desconfiar. Enquanto Brandon, (John Dall) assassino e amigo é um perfeito anfitrião e está entusiasmadíssimo com sua obra de arte realizada, sutilmente lança pistas que denunciam o crime por conta de seu entusiasmo enquanto Phillip (Farley Granger) perde o controle sobre si mesmo aos poucos, sem possuir a mesma frieza de seu colega, denunciando de outra forma o ocorrido.

O brilhantismo desse filme não está na escolha dos atores – ainda que James Stewart presenteie o filme com uma interessante interpretação - ou na história, bastante simples e auto-explicativa na sucessão do enredo, mas quase somente na condução do suspense cena por cena. Filmado inteiramente em estúdio, o cuidado em criar o cenário do apartamento e principalmente o cenário exterior, através das enormes janelas que tomam grande parte das paredes é muito eficiente em gerar um ambiente producente. As cenas longas e a movimentação dos assassinos e dos convidados pelo apartamento têm um toque consideravelmente teatral, frisando o caráter de espetáculo-arte do crime cometido.  Crime feito apenas para se provar possível, dentro de um ambiente familiar e aconchegante, extremamente frio e de um humor mórbido e incômodo ao espectador. Considerado uma experiência ousada dentro de sua filmografia, não foi bem recebido pela crítica em seu tempo e muito se especulou pelas referências homoeróticas presentes em vários momentos – logo na primeira cena, do estrangulamento, Brandon tem um prazer quase sexual pela morte de David – o que era bastante impactante para os anos 40, quando era inclusive proibido filmar cenas homossexuais.

                O desfecho lógico assumido na descoberta do crime e a ocorrência de uma inversão moral na história deixam o filme confuso, inclusive diminuindo o interesse no papel de Rupert. Longe das melhores realizações de Hitchcock, muito bem conduzido, mas por fim um suspense previsível.